Acordo UE-Mercosul e os minerais críticos brasileiros

Após uma negociação diplomática de mais de 25 anos, os países-membros da União Europeia aprovaram preliminarmente, nesta sexta-feira (09/01), o acordo comercial com o Mercosul. A votação no Comitê de Representantes Permanentes (Coreper), aprovada por maioria qualificada, não apenas desenha a maior zona de livre comércio do mundo, mas reposiciona o Brasil como peça-chave na geopolítica dos recursos naturais.

Para o setor mineral, esta não é apenas uma notícia sobre tarifas; é a consolidação de uma estratégia de autonomia e transição energética global.


O Contexto Geopolítico: Por que Agora?

A aceleração final para a aprovação do acordo ocorre em um cenário de pressão. A combinação das tarifas protecionistas impostas pelos Estados Unidos e a necessidade europeia de reduzir a dependência da China para matérias-primas transformou o Mercosul em uma prioridade de segurança para o bloco europeu.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viajará ao Paraguai na próxima segunda-feira (12) para a assinatura simbólica, selando o compromisso.


Minerais Críticos: O Coração do Acordo

A União Europeia identificou o acesso aos minerais críticos do bloco sul-americano como um dos pilares centrais do tratado. Kristina Grutschreiber, negociadora-chefe da UE, foi enfática ao declarar que a Europa “precisa desesperadamente” dessas matérias-primas para sustentar sua transição energética.

MineralAplicação PrincipalPosição do Brasil
LítioBaterias para veículos elétricos e armazenamento de energia6ª maior reserva mundial; produção em expansão
NióbioLigas de aço de alta resistência, supercondutoresLíder mundial (90% da produção global)
GrafiteBaterias, materiais refratários, eletrodosReservas significativas; potencial de expansão
NíquelBaterias, aços inoxidáveis, ligas especiaisProdução crescente; novas jazidas em exploração
Terras RarasÍmãs permanentes, eletrônicos, energia eólicaGrandes reservas; baixa produção atual
CobreCondutores elétricos, energia renovávelProdução moderada; potencial em Carajás
ManganêsBaterias, produção de açoEntre os maiores produtores mundiais

Flexibilidade e Agregação de Valor

Diferente do texto original de 2019, a renegociação concluída entre 2023 e 2024 trouxe uma vitória substancial para a política industrial brasileira. O novo texto preserva o direito do Brasil de implementar políticas de agregação de valor no setor mineral.

Isso significa que o Brasil mantém a prerrogativa de aplicar restrições ou impostos de exportação estratégicos para estimular o processamento local, evitando que o país permaneça apenas como um exportador de minério bruto.

AspectoPré-Acordo 2019Acordo 2024
Imposto de ExportaçãoProibidoPermitido (até 25% para UE)
Restrições à ExportaçãoNão previstasPermitidas para estimular agregação de valor
Política IndustrialLimitadaPreservada
Tratamento PreferencialNão aplicávelUE recebe alíquota menor que outros destinos

Cenário Tarifário e Acesso ao Mercado

O acordo prevê a eliminação progressiva de tarifas, criando um corredor comercial facilitado. Embora commodities consolidadas como minério de ferro já gozassem de isenções, o acordo oferece segurança jurídica e vantagens competitivas para produtos processados e novos minerais da transição energética.

ProdutoTarifa AtualTarifa Pós-AcordoPrazo de Transição
Minério de Ferro0%0%Já isento
Ferro-ligas2,7% – 7%0%Até 10 anos
Alumínio e produtos3% – 10%0%Até 10 anos
Cobre e produtos0% – 4,8%0%Até 10 anos
Produtos siderúrgicos0% – 10%0%Até 10 anos*
Minerais críticosVariável0%**Imediato a 10 anos


As vantagens para a mineração brasileira vão além da tarifa zero; tratam-se de integração de cadeias e atração de investimento estrangeiro direto focado em tecnologia de extração e processamento.

ÁreaBenefício para o Brasil
Diversificação de MercadosReduz dependência de mercados asiáticos e oferece alternativa às tensões comerciais com EUA e China
Atração de InvestimentosProjeção de aumento de 1,49% no fluxo de investimentos estrangeiros; interesse europeu em projetos de mineração sustentável
Agregação de ValorFlexibilidade para impor restrições e impostos de exportação estimula processamento local de minerais críticos
Transferência de TecnologiaParcerias em mineração sustentável, técnicas de processamento e tecnologias de transição energética
Aço VerdeMatriz elétrica 85% renovável posiciona Brasil como fornecedor de produtos siderúrgicos de baixo carbono
Acesso PreferencialEliminação de 100% das tarifas industriais da UE em até 10 anos; vantagem sobre concorrentes sem acordo
Cooperação InstitucionalDiálogos bilaterais em mineração responsável, energia renovável e biodiversidade
Compras GovernamentaisEmpresas brasileiras poderão participar de licitações europeias em igualdade de condições

O Desafio da Sustentabilidade (CRMA)

O acordo está intrinsecamente ligado ao Critical Raw Materials Act (CRMA) e às novas diretrizes de sustentabilidade europeias. As mineradoras brasileiras enfrentarão um escrutínio maior quanto à transparência na cadeia de suprimentos e certificações ESG.

O mercado europeu exige minerais “limpos”. A adequação a esses requisitos não será opcional, mas sim o passaporte para entrada nesse mercado.

RequisitoImplicaçãoAção Recomendada
Rastreabilidade da cadeia de suprimentosNecessidade de documentar origem e processo de extraçãoImplementar sistemas de rastreio e certificação
Compromisso com desmatamento zero até 2030Vinculação ao Acordo de Paris como elemento essencialAdequar operações em áreas sensíveis
Mineração responsávelPadrões ambientais e sociais europeusAdotar certificações internacionais (ex: IRMA)
Regras de origem específicas para ferro e açoCritérios diferenciados para produtos siderúrgicosGarantir compliance com requisitos de origem
Due diligence ambientalConformidade com regulações do Green Deal europeuInvestir em processos de baixo carbono

Próximos Passos

Com a aprovação do Coreper, o caminho está aberto, mas não concluído. A assinatura formal na segunda-feira (12) dará início ao processo de ratificação pelo Parlamento Europeu, onde batalhas políticas — especialmente com a ala agrícola francesa — ainda são esperadas.

FaseDescriçãoStatus/Prazo
Conclusão das NegociaçõesAnúncio do texto final em Montevidéu✓ Dezembro 2024
Aprovação das SalvaguardasParlamento Europeu aprova mecanismos de proteção agrícola✓ 16/12/2025
Aprovação pelos Estados-membrosVotação por maioria qualificada no Coreper✓ 09/01/2026
Assinatura FormalCerimônia no Paraguai com Ursula von der Leyen12/01/2026
Ratificação Parlamento EuropeuVotação em plenário – pode ser acirradaPróximos meses
Ratificação MercosulAprovação pelos congressos nacionais2026
Entrada em Vigor ProvisóriaParte comercial pode entrar em vigor após ratificação bilateral2026
Desgravação TarifáriaEliminação progressiva de tarifas industriaisAté 10 anos após entrada em vigor

Conclusão

A aprovação do Acordo Mercosul-UE marca um momento histórico. Para a mineração brasileira, o tratado oferece um duplo benefício: garante mercado para nossos minerais críticos em um momento de alta demanda global e, crucialmente, protege nossa capacidade de industrializar essas riquezas em solo nacional.


📷Gerada por IA

Fonte: Brasil Mineral

Últimas notícias
Fique por dentro!

Inscreva-se para receber novidades.

    Privacy Overview

    This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.